Então é dia das mães


E o dia termina e nasce outra vez, como na musiquinha-chiclete de final de ano. Mas o que mesmo você fez, mãe? Teve filhos desejados, curtidos antes, frutos da vontade suprema de exercer a maternidade? Ou será que, de um susto, viu seu traçado de vida mudar? Pode sentir cada instante de crescimento de um novo ser no seu ventre ou dormiu e acordou com a imensa dor do parto?

No fundo, nem importa se uma ou outra. Ser mãe é isso e aquilo, é dia e noite, claro e escuro. É acordar para a vida e viver de sobressaltos. É emoção na ida e na volta – adrenalina sempre! É entrega cotidiana sem reservas. Ser mãe é apostar na incerteza. É reconhecer a dureza da lida e nem por isso achar que pode desistir. Mas é sobretudo a infinita certeza de que o amor pelos filhos existe em si, sem pedir ou exigir retornos.

De minha parte, tenho tentado ser menos a mãe por trás da acepção da palavra. Desde sempre quis ser não só a mulher que teve filhos. Cultivo a possibilidade de uma relação de troca de experimentações, de partilha. Sinto-me viva em cada conquista ou frustração vivida pelas crias que dei à luz. Mas nessa caminhada nem sempre consigo me fazer entender. Muito mais me esqueço de ver neles um mundo novo todos os dias. Contraditório assim, como são as tentativas de acertar alvos em meio a tantos percalços. E não esqueço que sou livre para amá-los e respeitá-los sem que isso implique em culpas ou amarras. Nossos vôos nos chamam.

Sou uma filha da mãe

Família
Na minha infância era um tanto difícil o registro fotográfico. Não havia dinheiro para necessidades básicas quem dirá para “luxos”. São pouquíssimas as fotografias da família. E mesmo as que foram feitas se perderam pela ação do tempo e das malinações de menino buchudo. Éramos tantos! Somos ainda.

Essa foto que divido com você é uma de que gosto muitíssimo. Estamos, os cinco primeiros de uma penca de sete filhos, meu tio Craço e minha mãe [meu pai estava sempre no trabalho], no terreno onde ainda hoje moram meus pais. Não havia a casa ainda. Era o ano de 1969. Talvez 1970, não tenho certeza. Lembro bem do vestido vermelho de poá branco e fita de entremeio na cintura. Minha mãe tinha o hábito odiável de nos vestir a mim e minha irmã mais velha, a pequenininha do lado, com roupas iguais. Mas o que gosto mais na foto é a intimidade com que minha mãe repousa a mão sobre minha cabeça. Tão distantes e diferentes fomos por anos sem fim. Fortes e intransigentes, nos perdemos tantas vezes. Quantas vezes testei sua capacidade de me guiar! Nem sabia mas aprendi lições para a vida toda com isso.

O primeiro filho a gente nunca esquece

O primeiro filho a gente não esquece Tinha 19 anos quando engravidei. A paixão pelo menino de apenas 16 anos foi mais forte que os planos da adolescente segura, cheia de si, estudante de arquitetura, futuro desenhado para ser urbanista, livre com suas convicções dentre elas a de não ter filhos.

A gravidez escondida por medo da rejeição transformou aqueles dias em momentos de dores, mas também de muitas delícias. Tempo de descobertas arrebatadoras. Descobri que crescer assusta e faz criar coragem. Um filho pode fazer isso. Gabriel veio talvez com essa missão. Meu anjo de olhos negros, que eu quis que viesse ao mundo sorrindo, me deu vida nova ao tornar-se pai.

Salve, Antônio dos meus dias felizes

Salve, Antônio dos meus dias felizes
Tinha 31 anos, um filho de 11 e um segundo casamento feliz quando Pedro bateu à nossa porta. Tarefa aceita com muita serenidade. Nunca estive tão bem: amada, respeitada, feliz no trabalho, plena. O menino que nos fez recomeçar, chegou sem saber que era presente divino, semente de um amor tamanho que rompe fronteiras de tempo e espaço rumo à luz.

Na vivência cotidiana me traz suavidade  e gentileza, que me fazem sentir menina no seu colo de homem de 13 anos e coração maduro. Por vezes rude e imediatista, me joga de volta às incertezas e à necessidade de aprender sempre.

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  1. #1 by Daniel Fonsêca at 10 de maio de 2009

    A julgar pelo rebento temporão, Maysa, você é uma grande mãe, além da profissional que conhecemos. O João Gabriel prova isso.

  2. #2 by Daniel Sampaio at 10 de maio de 2009

    Lindo texto! Parabéns, mamãe Maísa! Tudo de bom pra vcs e para os seus.

  3. #3 by Pablo Robles at 10 de maio de 2009

    Oi,

    Interessante e vívida sua postagem-depoimento como mãe.

    Gostei desse trecho:

    “Descobri que crescer assusta e faz criar coragem. Um filho pode fazer isso. Gabriel veio talvez com essa missão.”

    E a missão parece que foi e está sendo bem cumprida.

    “Uma criança ajuda uma mãe a se tornar mais mulher e um pai a se tornar mais homem” (Pablo Robles)

    Abraços

    PS.: Recém-seguidor seu no Twitter

  4. #4 by Emílio Moreno at 10 de maio de 2009

    um texto lindo e emocionante como você. obrigado por dividir essa emoção com a gente.

  5. #5 by Marcelo Bloc at 11 de maio de 2009

    Grande texto! Parabéns mamãe!

  6. #6 by Mailma Vasconcelos de Sousa at 11 de maio de 2009

    Parabéns a você, minha irmã Maísa Vasconcelos, que sempre lembra, às vezes em público, que não é uma escritora assim como esta sua irmã Mailma, me fazendo vergonha, pois não sou assim uma escritoooooooooora. Apenas sou “fissurada” em escrita. Você com certeza tem o que há de essencial sim numa escritora: escreve bem, muuuuuuuuuuito bem mesmo, porque tem bastante domínio sobre a nossa língua. Porém não é somente isso que você tem de uma escritora das boas. Você tem a característica fundamental de quem escreve bem: o sentimento que aduba o olhar de quem lê. Literalmente põe lágrimas nos olhos. Nos meus sim. Não sei se pela lembrança boa que tenho de cada uma das mínimas histórias desta nossa família que, apesar das dificuldades, sempre nos rumou aos melhores caminhos, graças aos princípios de nosso pai e principalmente de nossa mãe atenta e sábia sempre, ela que aí, eu nunca tinha percebido, Maísa, põe a mãe sobre sua cabeça. Lendo hoje, segunda-feira, estas suas construções e reconstruções de outros dias e do dia de ontem, este que pra mim é um dos mais especiais de cada ano, com todas as suas aparentes repetições maravilhosas nunca igualadas, relembro e reconheço o quanto cada uma de suas palavras e experiências têm vida de mãe. Você precisa escrever um livro com estas e tantas suas vivências, que inclusive são nossas e ninguém mais as tem. São únicas, raras como esta nossa foto antiga em preto e branco que não deixa ver como era lindo este nosso idêntico vestido vermelho de bolinhas brancas e fita de entremeio na cintura! Parabéns, minha irmã Maísa Vasconcelos.

  7. #7 by aloisio Blau at 11 de maio de 2009

    Texto emocionante. Li e já arquivei.
    É muito bom quando a gente ler um texto verdadeiro e cheio de ensinamentos.

  8. #8 by Ian Gomes at 12 de maio de 2009

    Eu num disse ,garota que vc deveria escrever mais, mais e mais. Simplesmente divino!bj, Ian Gomes.

  9. #9 by elisa beth at 12 de maio de 2009

    Maísa, é muito bom ler voce ! Sua história, com seu jeito próprio de sentir e descrever, é ao mesmo tempo simples e fascinante ! Quantas observações que nos passa…
    Carinho e gratidão, marcam a sua fala sincera, e vamos apreciando palavra por palavra, frase por frase…
    “Mas o que gosto mais na foto é a intimidade com que minha mãe repousa a mão sobre minha cabeça. Tão distantes e diferentes fomos por anos sem fim. Fortes e intransigentes, nos perdemos tantas vezes. Quantas vezes testei sua capacidade de me guiar! Nem sabia mas aprendi lições para a vida toda com isso.”
    …e nos faz um bem enorme. Parabens !

  10. #10 by George Viana at 14 de julho de 2009

    Maísa!
    Lendo sua história de vida percebo que você é muito feliz. Gostei da maneira como coloca cada palavra e cada letra, é como um pedreiro construindo uma casa. Tem muita sensibilidade e firmeza no que escreve. Algumas fatos me tocou muito, por exemplo, a sua gravidez muito jovem. Isto é o que acontece com muitas adolescentes, hoje. Deve ser um sofrimento terrível ter que esconder algo que não se pode esconder. A barriga começa a crescer, e o que vou fazer?
    Maísa faz muito tempo que te acompanho pela TV, mas é a primeira vez que escrevo e falo sobre você. De primeira mão é uma vencedora, pois deve ter atravessado muitas barreiras pra chegar onde chegou. Talvez, esteja um pouco atrasado, porém nunca é tarde para se dizer algo bom de alguém.
    Descobri seu blog através do twitter, pois estou começando a desvendar esta ferramenta tão interessante.
    Continue sempre sendo essa pessoa maravilhosa, atenciosa, humilde e caridosa. Sei que de milhares de fãs que tem sou apenas um grão perdido na aréia.
    A família nossa é tudo e constatei pelo que escreveu, em você tudo se resume em célula familiar. Parabéns pela ética e seriedade que passa para milhões de expectadores que vêem seu programa.

(não será publicado)