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Ave, Patativa!

Há uns bons 15 anos tive a satisfação de entrevistar Antônio Gonçalves da Silva, o poeta Patativa do Assaré. Infelizmente não tenho arquivo disso, nem a TV digitalizou pra eu poder rever. Lembro dele reclamar das “oiça” já debilitadas pela idade. Só isso e nada mais de desânimo com a vida.

Mesmo nos versos fortes que desnudaram a crueza da vida do sertanejo, Patativa sempre deixou transparecer um quê de esperança. Sua poesia é vigorosa e singela ao mesmo tempo. Poderia citar várias, principalmente as contidas no livro “Ispinho e Fulô,  de 1988. Fico com uma que me faz abrir sorriso:

Óios redondo

Nesta vida aperriada
Pra me livrá das furada
Destes teus óios redondo,
Caboca onde é que eu me soco
Caboca onde eu me coloco?
Caboca onde é que eu me escondo?

Pra me esquecê dos teus óio
Eu canto, eu grito, eu abóio,
Faço tudo que é preciso,
Mas por onde eu vou passando
Sinto teus óio briando
Por dentro do meu juízo.

Meu padecê, minha cruz,
É tuas bolsa de luz
Que me dêxa incandiado,
Estas duas jóias prima
Com a força de dois íma
Me puxando pra teu lado.

Vendo os teus óio prefeito
Sinto entrando no meu peito
Dois ferrão de marimbondo
Caboca, não seja ingrata,
Tu me martrata e me mata
Com esses óio redondo.

Me tire desta sentença,
Tu só parece que pensa
Que eu não tenho coração,
Tu me amofina e me aleja
De ruêdera, de inveja,
De ciúme e de paixão.

Sabe quá é a meizinha
Pra essa doença minha?
Pregunta que eu te respondo,
Era se tu me quisesse
E de coração me desse
Estes teus óio redondo.”

Poema extraído do livro “Ispinho e Fulô”, da forma como foi publicado.

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