Archive for 16 de janeiro de 2009
Jericoacoara
Posted by Maísa Vasconcelos in Brasil, Dicas, Eu, Outros on 16 de janeiro de 2009

As imagens… as fotografias da fotógrafa melhor dizendo, não fazem jus ao lugar. Talvez por isso esteja aqui gastando minutos preciosos do meu ócio para dizer palavras. Voltar a Jericoacora é sempre revisitar um tempo de descobertas muito bacanas.
Conheci a Vila há cerca de 26 anos, num tempo em que era a generosidade dos nativos a nos acolher entre paredes de taipa e chão batido. Pena! A casa da Dona Filó, morta ao cair do transporte que cruzava as dunas levando gente e botijões de gás, guardei apenas na memória. Terreiro pingado do cocô das galinhas e a reca de pintinhos, tangidos para dar lugar à barraca de camping, à prosa do final de tarde. O olhar pela janela agora, quanta diferença!
E eu gostei. Lugar agradável, conforto que não chega a ostentar. Aliás, pousadas há em profusão na Vila. A maioria com foco no turista estrangeiro, bolsos abertos. Muitas delas ajudando a descaracterizar a praia, a natureza. E há nisso um saudosismo que não nego. Tenho até uma certa dificuldade com o fato de que é difícil ouvir nosso sotaque carregado por aqui. Há gente de toda parte. Todos encantados. Mesmo os que repetem a visita se deslumbram. Um solta gritinhos ao ver os peixes que sobraram na maré baixa; o outro pela farofa excitante de conchas e areia no chão da ida para a Praia da Malhada… E a imensidão do céu?! Ah, a noite pode ter tantas estrelas! Quanto a mim, junto a tudo isso a possibilidade da interação, mínima que seja, com as pessoas do lugar. Coisa que fica cada vez mais difícil, diga-se.
O pescador e o “lodo do algodão”
Se antes descia para tentar um escambo pensando no peixe do almoço, agora quero só as histórias. Seu Manoel do João do Bento, nascido Manoel Balbino da Costa há 51 anos, levantou às três da madrugada. Perto das 11 da manhã continua na lida. Não se incomoda com as fotos. Enquanto remenda a rede rasgada pelo baiacu, ensina: “O povo chama ‘olga’, mas pra nós é o lodo do algodão”. Tal como o “lodo algodão”, que gruda na rede, pescar é sua sina. Se vai pro mar é assim, uma rotina que vai se repetir amanhã. Hoje pescou R$ 2,00. Bem fizeram dois dos 15 filhos, que cruzaram o mar e foram viver em Portugal. Um terceiro está tirando documentos. Nenhum “deu pra pesca”. Ele não recrimina. “Melhor é ser mestre de bar e ganhar o salário”, diz. Mas nem pensa em parar, embora o desencanto tenha chegado há tempos. Sem querer, reclama do barulho dos forrós “todo santo dia”. Gostava mais quando só havia um dia na semana pra isso. Foi ele quem me lembrou do lugar exato onde ficava a casa da Dona Filó: “ali bem em frente ao Jacaré”, o mercadinho de hoje. Os rapazes que moravam na casa, o filho dela que hoje vive em Camocim, a primeira pousada, a violência da cidade grande… Melhor menos palavras.




Maísa Vasconcelos - Brasileira [em Fortaleza] - Apresentadora de TV [quase loura, nada de peitões] - Jornalista [até certo ponto parcial] - Radialista [fora do dial, por enquanto] - Cerimonialista [sem frescuras] - Blogueira [de bobeira] - Mulher [em construção]
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