A imagem do dia

2 Junho 2008, por Maísa Vasconcelos

Sem sacanagem, isso é o que se pode chamar de sorte. Estou falando do fotógrafo, claro. A pessoa certa na hora certa para o clique certeiro. Nesse caso um fotógrafo da agência Efe. A cena inusitada do atropelamento de uma ruma de ciclistas, onde se vê caco de gente pra todo lado, poderia não estar sendo vista. Aconteceu no México. Como aqui, por lá também há estúpidos assassinos bêbados ao volante.

Infelizmente, o resultado foi uma morte e vários feridos.

Fonte: Terra
Imagem: Efe

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Só por hoje

2 Junho 2008, por Maísa Vasconcelos

Ainda lembro da minha primeira vez. Como a maioria das moças adolescentes da minha idade, buscava afirmação em tudo enquanto. Julgava poder ter o mundo aos meus pés, e, portanto, não me impunha limites na busca pelos prazeres que a vida oferecia. E assim fui seduzida. A promessa de prazer, estampada nas revistas e na TV, enfim se apresentava como uma real aproximação do mundo dos adultos. No começo foi tudo muito rápido, às escondidas… E acredite: já se vão 24 anos de uma relação de amor e ódio, desde os primeiros tragos.

Por mais que o fogo do inferno esteja logo ali a me esperar, mas também crente que assumir pode me livrar de parte da pena, eu confesso: foi amor ao primeiro trago. Sempre gostei de fumar. Sempre achei que nós, eu e o cigarro, combinamos. Relaxante, prazeroso, elegância, segurança: palavras com as quais me identificava ao fumar. Via-me le beau français, por entre mesas de um café litteráire, cigarro sem filtro na mão. Tão sexy, glamurosa e arrebatadora como só eu gostaria de ser.

Não me culpo por ter sido presa fácil. Também não aceito a pecha de coitadinha. Vivíamos um tempo de busca pela “fórmula do sucesso”, de curtir o melhor da vida. Apenas um paradoxo? Em todos os tempos, e para todos os tipos de carências, as formas de convencimento passam por armadilhas quase perfeitas. Os que “precisam”, depois é se rebolar para assumir danos certos.

Em qualquer situação, perceber o mal de uma “escolha” é talvez a parte mais difícil. No caso do tabagismo, não considero que seja exatamente uma opção o que nos leva ao vício infame, que nos consome não só enquanto perdura, mas também depois e todos os dias. Está comprovado que há substâncias que se encarregam de nos transformar em subordinados. Seres pequenos com enormes vazios escondidos. Imperfeições que tentamos camuflar com isso ou aquilo. Muletas para deficiências sensoriais, quem sabe.

Não recordo quantas foram as tentativas de me afastar. Se de uma vez foi pela repugnância ao cheiro, por outra foi aquela gastrite doída demais que pesou mais na balança. Pior foi daquela em que vi o grande amor se ir, sem tempo para um “até logo!”. Na parada do coração do homem que escolhi para viver uma vida inteira de desafios e certezas, a prova do mal cotidiano que nos causamos. Mesmo assim não deu. Que força é essa que aprisiona dessa forma? Até consegui me impor limites. Contabilizei cada vitória, que eu mereço um carinho. Houve mesmo um tempo em que parei para tentar ser amada sem restrições. Quase! Estou mais uma vez de um dos lados do contador. Completo hoje 90 dias, algumas horas e outros tantos minutos sem nicotina no cérebro. Dê-me os parabéns, por favor! E nem de longe tente exigir de mim mais do que posso dar ou sentir.

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Inexorável

2 Junho 2008, por Maísa Vasconcelos

Eu sou eu e sozinho. Diverso sobre mim e sob eu mesmo.

Oculto e visível como a lua caída no poço.

Proclamado como o homem dentro da praça, no meeting,

sacudindo com os gestos da boca palavras secas nos olhos da multidão. Intocável e impossível como o que não se conhece e não morre.

Fui apresentada a José Alcides Pinto há pouco mais de 20 anos. Quanta liberdade havia nos seus textos, na sua poesia. Triste surpresa saber que ele se foi hoje e de uma forma estúpida, num acidente de trânsito.

Adeus, poeta!

Créditos do texto: fragmento de “Eu”, de José Alcides Pinto

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